Há intelectuais que repetem ideias. E há aqueles que as moldam, testam e expõem ao mundo com coragem. Thomas Sowell pertence à segunda categoria. Aos 94 anos, o economista e filósofo social norte-americano é, com justiça, o maior intelectual conservador vivo — uma figura que atravessou gerações sem se curvar à moda ideológica ou ao poder político. Sua obra é um testemunho do que a honestidade intelectual ainda pode produzir quando guiada por princípios e pela busca sincera da verdade.
Das ruas de Harlem à Universidade de Stanford
Thomas Sowell nasceu em 1930, em Gastonia, na Carolina do Norte, em uma família pobre e sem acesso a privilégios. Órfão de pai antes mesmo de nascer, foi criado por uma tia e cresceu no bairro de Harlem, em Nova York — então um centro vibrante da cultura negra americana. A pobreza o acompanhou na infância, mas a curiosidade e a disciplina o distinguiram.
Serviu aos fuzileiros navais dos Estados Unidos durante a Guerra da Coreia, e após o serviço militar iniciou sua trajetória acadêmica em Harvard, concluindo o mestrado em Columbia e o doutorado em Economia pela Universidade de Chicago, sob a orientação de George Stigler, ganhador do Nobel de Economia e colega de Milton Friedman.
Sua passagem por Chicago foi decisiva: ali Sowell consolidou uma visão de mundo baseada na liberdade de mercado, responsabilidade individual e na limitação moral do Estado.
Um pensador contra o consenso
Diferentemente da maioria dos intelectuais de sua geração, Sowell jamais se rendeu ao discurso da vitimização racial ou ao paternalismo estatal. Em obras como Race and Culture (1994), The Vision of the Anointed (1995) e Black Rednecks and White Liberals (2005), ele desafia a narrativa progressista que explica a desigualdade apenas pela opressão. Para Sowell, o que realmente diferencia sociedades e grupos é o capital cultural, o esforço e o comportamento produtivo — não a cor da pele ou o discurso político.
Essa visão o tornou um dos pensadores mais censurados e ignorados pela elite acadêmica. Mas também o transformou em um dos mais influentes entre economistas, políticos e cidadãos comuns que enxergam no mérito, e não na vitimização, o caminho para a liberdade.
A clareza de quem enxerga o essencial
Sowell possui uma rara habilidade: traduzir economia, filosofia e história em linguagem acessível sem perder profundidade. Seu livro Basic Economics, publicado em 2000, tornou-se um manual global de introdução à economia, adotado em universidades e escolas de negócios em todo o mundo. Sem recorrer a equações, ele explica os fundamentos da escassez, dos preços, dos incentivos e das consequências não intencionais da intervenção estatal.
Em Intellectuals and Society, Sowell expõe o perigo dos “intelectuais descolados da realidade” — aqueles que vivem de ideias que não precisam ser testadas, mas que afetam milhões de pessoas quando transformadas em políticas públicas. Sua crítica é direta: as boas intenções não substituem os bons resultados.
“Muitos dos erros mais destrutivos da história nasceram de pessoas que queriam fazer o bem — mas não sabiam o que estavam fazendo.”
— Thomas Sowell
A herança de um mestre da liberdade
Mesmo aposentado do ensino, Sowell continua ativo como pesquisador sênior no Hoover Institution, ligado à Universidade de Stanford. Seus artigos e livros somam mais de 40 títulos, abrangendo temas como economia, educação, política, cultura e história. Seu estilo direto, factual e moralmente firme influenciou gerações de conservadores, liberais clássicos e libertários.
Entre seus principais livros, destacam-se:
- Basic Economics (2000)
- A Conflict of Visions (1987)
- The Vision of the Anointed (1995)
- Economic Facts and Fallacies (2008)
- Wealth, Poverty and Politics (2015)
- Discrimination and Disparities (2018)
Thomas Sowell é, em muitos sentidos, a consciência moral de uma era que perdeu o senso de responsabilidade. Sua vida é uma refutação viva à ideia de que o sucesso depende de políticas compensatórias. É o triunfo da razão sobre a vitimização, da liberdade sobre o controle e da experiência sobre a ideologia.
Um farol em tempos de trevas intelectuais
Em um mundo onde as universidades se tornaram centros de doutrinação e a imprensa repete slogans políticos, Thomas Sowell permanece como um farol solitário da lucidez. Ele não busca aplausos, não precisa de cargos nem de curtidas. Sua autoridade nasce da coerência — e da coragem de pensar o óbvio quando o óbvio virou heresia.
“Há ideias que são tão estúpidas que só um intelectual seria capaz de acreditar nelas.”
— Thomas Sowell
Thomas Sowell é, enfim, o último grande intelectual conservador vivo. Um homem que não fala de liberdade: viveu e a defendeu com a própria trajetória. E talvez por isso, sua voz soe hoje ainda mais necessária — num tempo em que quase todos se calam.