Para além da surpresa da paternidade, o artista e assistente audiovisual Beijamin Aragão, homem trans, precisou enfrentar uma série de desafios desde o momento em que descobriu, no ano passado, que estava grávido. Em 2025, ele se tornou pai de uma criança, fruto da relação com a produtora cultural Ella Monstra, que é travesti.
A gestação trouxe mudanças físicas e emocionais, mas também escancarou barreiras estruturais que ainda ignoram realidades fora do padrão cisgênero. Mesmo com plano de saúde, Beijamin relatou enfrentar desde atendentes de recepção que não sabiam como lidar com um “homem grávido” até sistemas médicos incapazes de registrar a gestação em um corpo masculino. “Tudo parecia desenhado para excluir qualquer pessoa que não fosse uma mulher cis”, afirmou.
O caso reacende um debate que divide opiniões entre especialistas, instituições e a sociedade. O termo “homem trans” é usado para se referir a pessoas que nasceram com sexo biológico feminino, mas que se identificam e vivem socialmente como homens.
Do ponto de vista biológico, especialistas ressaltam que o sexo é determinado por fatores genéticos e anatômicos, que não podem ser alterados por intervenções hormonais ou cirúrgicas. Assim, para essa corrente, o chamado “homem trans” continuaria sendo, biologicamente, uma mulher — o que leva críticos a considerar o conceito um construto ideológico.
Por outro lado, sob a ótica psicológica e sociocultural, o gênero é entendido como uma experiência interna e subjetiva, que pode divergir do sexo biológico. Nesse campo, instituições de saúde e direitos humanos defendem o reconhecimento das identidades trans e o respeito à autopercepção de gênero, como forma de garantir dignidade e inclusão.
Entre a ciência e a ideologia, o debate permanece aberto: afinal, existe de fato o “homem trans” — ou essa ideia não passa de um devaneio ideológico? A discussão, mais do que semântica, reflete o embate entre visões opostas sobre a natureza humana e os limites da identidade na sociedade contemporânea.