A exigência de que trabalhadores rurais substituam o tradicional chapéu de palha por capacetes de obra, sob pena de multa, escancarou a distância entre Brasília e a vida real no campo. Apresentada como “modernização” e “adequação às normas”, a medida tem sido recebida por produtores e trabalhadores como mais um exemplo de burocracia urbana imposta a quem produz alimento sob sol forte, calor extremo e margens cada vez mais apertadas. O resultado imediato não é mais segurança ou produtividade, mas mais custo, mais fiscalização e mais insegurança jurídica.

No discurso oficial, a regra aparece como avanço civilizatório. Na prática, ela ignora a diversidade do trabalho rural brasileiro e trata o campo como se fosse um canteiro de obras urbano. O chapéu de palha, além de símbolo cultural, é uma ferramenta funcional adaptada ao clima e à rotina agrícola. Substituí-lo por um equipamento pensado para outra realidade não aumenta a produção nem resolve os gargalos do setor — apenas amplia o poder punitivo do Estado sobre quem já lida com impostos elevados, crédito caro e instabilidade regulatória.

O paradoxo é evidente: enquanto o governo promete combater a inflação dos alimentos, suas ações tornam a produção mais cara e complexa. Menos chapéu, mais capacete; menos incentivo, mais multa; menos produtividade, mais ideologia. O produtor paga a conta, o alimento encarece e o país perde competitividade. Em vez de apoiar quem trabalha de sol a sol, o Estado prefere fiscalizar gestos e símbolos, como se isso fosse política agrícola. O Brasil de 2026 parece menos preocupado em produzir mais — e mais empenhado em controlar tudo.

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