Desde o fim da ditadura militar e o início da Nova República, o Brasil convive com uma relação tensa entre inflação e taxa de juros. De José Sarney a Luiz Inácio Lula da Silva, cada governo enfrentou o mesmo dilema: conter a alta de preços sem paralisar a economia. Quase quatro décadas depois, os juros seguem entre os mais altos do mundo real, revelando que o país ainda não encontrou o equilíbrio entre responsabilidade fiscal e crescimento sustentável.
Sarney (1985–1990): hiperinflação e planos de emergência
O governo Sarney herdou uma economia desorganizada, marcada por inflação que ultrapassava 200% ao ano. Entre 1986 e 1989, o país viveu uma sucessão de planos econômicos — Cruzado, Bresser e Verão — que tentaram conter a escalada de preços por meio de congelamentos e tabelamentos. Sem reformas estruturais, os resultados foram temporários. Os juros eram manipulados para conter crises momentâneas, mas não havia uma política monetária estável.
Collor e Itamar (1990–1994): confiscos e o nascimento do Real
Em 1990, Fernando Collor de Mello promoveu uma das medidas mais polêmicas da história econômica brasileira: o confisco das poupanças. A tentativa de conter a inflação por choque de liquidez mergulhou o país em recessão e perda de confiança. Com Itamar Franco, veio o divisor de águas: o Plano Real. Lançado em 1994 pela equipe liderada por Fernando Henrique Cardoso, o plano criou uma nova moeda e estabeleceu as bases para uma política monetária moderna, baseada no controle da inflação e na autonomia técnica do Banco Central.
FHC (1995–2002): estabilidade com juros altos
Com o Real consolidado, o governo FHC enfrentou os efeitos das crises externas dos anos 1990. A taxa Selic passou a ser o principal instrumento de controle inflacionário, chegando a 45% ao ano em 1999, após a adoção do regime de metas de inflação. Foi o início de um novo modelo econômico, em que a estabilidade de preços passou a ter prioridade. O preço foi alto: crescimento modesto e custo elevado do crédito.
Lula e Dilma (2003–2016): expansão do crédito e intervencionismo
Nos primeiros anos de Lula, o Banco Central manteve política rígida de combate à inflação. Com o tempo, e favorecido por um ciclo global de crescimento, o país reduziu gradualmente os juros, expandiu o crédito e viu milhões de brasileiros entrarem no consumo.
No entanto, sob o governo Dilma Rousseff, houve tentativas de reduzir a Selic por decisão política, sem sustentação fiscal. A perda de credibilidade do Banco Central e o descontrole dos gastos públicos reacenderam a inflação, que voltou a dois dígitos em 2015. A instabilidade culminou na recessão e no impeachment de 2016.
Temer e Bolsonaro (2016–2022): recuperação e pandemia
Michel Temer herdou uma economia em crise e promoveu reformas que restauraram parte da confiança fiscal, permitindo uma trajetória de queda dos juros. Durante a pandemia, o governo Bolsonaro enfrentou um cenário inédito: a Selic chegou ao piso histórico de 2% em 2020 para conter os efeitos da recessão. O estímulo, no entanto, foi seguido de forte pressão inflacionária global. Em resposta, o Banco Central elevou a taxa para 13,75% em 2022, retomando o rigor monetário.
Lula (2023–presente): tensão entre governo e Banco Central
Desde o início de 2023, o debate sobre a política de juros voltou ao centro da cena. O governo Lula defende cortes mais rápidos na Selic para estimular a economia, enquanto o Banco Central adota postura cautelosa diante das incertezas fiscais e da dívida crescente. O impasse reflete um dilema histórico: o país tenta crescer, mas sem perder o controle inflacionário.
Quase 40 anos depois, o mesmo desafio
Da hiperinflação dos anos 1980 à independência formal do Banco Central em 2021, o Brasil percorreu um longo caminho. No entanto, a persistência de juros altos revela um problema estrutural: a desconfiança na gestão das contas públicas. Enquanto o Estado gastar mais do que arrecada, o custo do dinheiro continuará elevado — e os brasileiros seguirão pagando a conta.