Publicações que associam a queda dos níveis de testosterona masculina a um suposto projeto de controle social têm ganhado alcance nas redes sociais nos últimos dias. As mensagens afirmam que a redução hormonal observada em estudos populacionais seria resultado deliberado da exposição a substâncias químicas presentes na água e nos alimentos, com o objetivo de tornar os homens “biologicamente inofensivos”.
O discurso cita a presença de xenoestrogênios, como o bisfenol A (BPA) — composto utilizado na fabricação de plásticos — e sugere que essas substâncias estariam sendo usadas de forma intencional para enfraquecer a capacidade de reação masculina. Segundo os autores das publicações, homens com baixos níveis de testosterona seriam mais dóceis, menos propensos à revolta e mais suscetíveis à obediência.
De fato, pesquisas internacionais indicam que houve uma redução média nos níveis de testosterona em populações masculinas ao longo das últimas décadas. No entanto, especialistas apontam que o fenômeno é multifatorial. Entre os principais fatores associados estão o aumento do sedentarismo, da obesidade, do estresse crônico, da privação de sono, do consumo excessivo de álcool, além do envelhecimento populacional e de mudanças nos hábitos de vida.
A presença de substâncias com potencial de interferência endócrina no meio ambiente é reconhecida pela comunidade científica, mas não há comprovação de um plano coordenado ou intencional de controle biológico da população masculina, tampouco evidência de relação direta entre níveis hormonais e comportamento político ou social.
Para pesquisadores da área de saúde pública, transformar um debate legítimo sobre qualidade de vida, alimentação e exposição ambiental em uma narrativa de dominação global pode gerar desinformação e dificultar a compreensão do problema real. Eles ressaltam que baixos níveis de testosterona são uma questão médica individual, tratável, e não um instrumento de engenharia social.
O tema reacende discussões mais amplas sobre saúde masculina, estilo de vida moderno e confiança nas instituições, mostrando como dados científicos podem ser reinterpretados e amplificados nas redes sociais a partir de leituras ideológicas ou alarmistas.