A troca de mensagens entre um procurador e um juiz foi suficiente para provocar uma avalanche de reações: pedidos de anulação de provas, revisão de condenações, devolução de multas e até a reinterpretação de uma das maiores operações anticorrupção do país. Para muitos, bastaram diálogos revelados para colocar sob suspeita bilhões recuperados de réus confessos — dinheiro que havia retornado aos cofres públicos após anos de investigação.
Agora compare com outro cenário: um escândalo financeiro de proporções bilionárias envolvendo um banco e citações a autoridades cuja função primordial é justamente zelar pela lei. Aqui, o que deveria provocar indignação imediata parece frequentemente vir acompanhado de cautela, silêncio ou explicações técnicas. Em vez de choque moral, surgem ponderações. Em vez de urgência, paciência institucional.
A diferença não é apenas jurídica — é simbólica. No primeiro caso, discutem-se mensagens e procedimentos; no segundo, fala-se de bilhões supostamente desviados e da possível proximidade de figuras centrais do sistema de Justiça com um episódio dessa magnitude. Não se trata de minimizar garantias legais nem de ignorar a necessidade de processos corretos, mas de reconhecer que a escala e a natureza dos fatos importam para a percepção pública.
Quando irregularidades formais ganham mais barulho do que escândalos financeiros gigantescos, a sociedade inevitavelmente começa a questionar os critérios de indignação. E quando a reação de parte do Judiciário e da grande mídia parece oscilar conforme o alvo, cresce a sensação de que existe uma seletividade — não necessariamente declarada, mas perceptível.
No fim, o maior risco não é apenas a impunidade ou o erro judicial isolado. O perigo real surge quando o cidadão passa a acreditar que há pesos diferentes para situações diferentes — especialmente quando aqueles responsáveis por proteger a lei aparecem ligados, direta ou indiretamente, a controvérsias dessa dimensão. Sem confiança na coerência das instituições, qualquer democracia começa a se fragilizar. No nosso caso, ela parece ter ruido.