A China começa a revelar ao mundo o que acontece quando o Estado passa a decidir quem pode — ou não — existir economicamente. O chamado Sistema de Crédito Social, criado oficialmente em 2014 e ampliado nos últimos anos, já afeta milhões de cidadãos com restrições financeiras, profissionais e de mobilidade.
Relatórios da Human Rights Watch e do Mercator Institute for China Studies (MERICS) apontam que pessoas incluídas em listas de “más condutas” enfrentam bloqueios em viagens, dificuldades para obter crédito e até restrições em plataformas digitais. Embora ainda não existam evidências de um bloqueio total de pagamentos, há casos documentados de congelamento de contas ou exclusão de serviços como WeChat Pay e Alipay para usuários em disputa com o Estado.
O fenômeno cresce na medida em que governo e empresas privadas compartilham dados. A China National Credit Information Sharing Platform já integra informações de mais de 40 órgãos estatais e plataformas tecnológicas, criando um sistema que mistura vigilância, finanças e moralidade pública. A fronteira entre punição jurídica e controle ideológico torna-se cada vez mais tênue.
Pesquisas acadêmicas, como as conduzidas pela Harvard Kennedy School, revelam ainda que cidadãos com pontuação baixa são informalmente discriminados por empregadores, bancos e locadores. A exclusão, nesse caso, não vem de uma sentença judicial — mas de uma reputação digital negativa.
O resultado é um cenário que preocupa especialistas: um modelo em que a obediência passa a valer mais que o caráter, e onde a submissão a parâmetros estatais é o novo visto de sobrevivência social.
A tecnologia, que deveria libertar, transforma-se em instrumento de controle.
O pesadelo do crédito social ainda não chegou ao seu auge, mas seus sinais já estão acesos — e merecem atenção do mundo livre.