Coluna do Eita

Muito se fala sobre os protestos em frente aos quartéis, que culminaram nos acontecimentos do 8 de janeiro de 2023, como se tivessem sido a origem de um ataque à democracia. No entanto, uma análise mais fria dos fatos permite outra leitura: esses atos foram, para muitos brasileiros, uma reação — e não a causa — do que se convencionou chamar de “golpe”.

O estopim não foi um movimento espontâneo de ruptura institucional, mas um processo anterior: a soltura de um condenado por corrupção, o sepultamento da Lei da Ficha Limpa, sua reabilitação política relâmpago e os vícios gritantes apontados no processo eleitoral. Para uma parte expressiva da população, o que se viu foi a inversão dos princípios básicos de justiça, alimentando um clima de desconfiança institucional que explodiu nas ruas.

Ao rotular automaticamente esses protestos como um “golpe contra a democracia”, ignora-se que, para muitos manifestantes, o golpe já havia começado antes, com a erosão da imparcialidade do sistema judiciário e eleitoral. Foi essa percepção de desequilíbrio que levou milhares às portas dos quartéis — não para pedir um retrocesso autoritário, mas para exigir respostas e segurança jurídica.

Se o Brasil quer evitar novos episódios como o do 8 de janeiro, precisa enfrentar de frente o tema da confiança nas instituições. Isso exige processos eleitorais mais transparentes, regras claras, respeito à legislação vigente e juízes que mantenham a imparcialidade como norte, sem confundir papel institucional com ativismo político.

A democracia não se fortalece sufocando vozes críticas, mas garantindo que todos, inclusive os inconformados, tenham segurança de que a lei vale para todos, sem exceção nem atalhos.

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