Editorial Litoral

Em que lugar do mundo um juiz da Suprema Corte se envolve pessoalmente na investigação de uma operação policial?
A resposta é simples: em nenhum.

Em qualquer democracia madura, os papéis são claros e bem definidos. O Judiciário julga, o Ministério Público acusa e a polícia investiga. Cada instituição atua dentro de limites constitucionais que garantem o equilíbrio dos poderes e a preservação da liberdade. Mas, no Brasil, essa fronteira foi cruzada há muito tempo — e de forma cada vez mais explícita.

O envolvimento direto de um ministro do Supremo Tribunal Federal em operações policiais é o símbolo máximo da inversão institucional. O juiz, que deveria ser o guardião da lei e o árbitro imparcial dos conflitos, passa a agir como protagonista político. E quando o juiz vira parte do jogo, o jogo deixa de ser justo.

Essa concentração de poder representa o que muitos já chamam de ditadura do Judiciário — um regime silencioso, sem tanques nas ruas, mas com despachos que calam vozes, cassam mandatos e censuram opiniões. É uma ditadura travestida de legalidade, sustentada pela retórica da “defesa da democracia” enquanto a própria democracia é mutilada.

O perigo desse modelo é que ele se normaliza. Aos poucos, a sociedade se acostuma a ver ministros interferindo em investigações, políticos sendo punidos sem julgamento e jornalistas sendo censurados por decisão monocrática. E o que deveria causar espanto passa a ser tratado como rotina.

A democracia não morre de um golpe súbito, mas de pequenas concessões à arbitrariedade. Morre quando a lei deixa de ser a referência e a vontade de um juiz passa a definir o que é certo e errado.

O Brasil precisa reencontrar o equilíbrio entre os poderes. Um Supremo forte é essencial — mas um Supremo ilimitado é uma ameaça. Quando o Judiciário se torna protagonista, o cidadão perde a proteção da lei e passa a viver sob o medo da decisão.

A ditadura do Judiciário não é o futuro. É o presente que já se impôs — e que só será revertido se a sociedade voltar a exigir o óbvio: juízes que julguem, e não governem.

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