Durante a pandemia de COVID-19, o então presidente Jair Bolsonaro foi alvo de críticas intensas por defender o uso de medicamentos como cloroquina e ivermectina. A narrativa dominante tratou sua posição como irresponsável. Mas há um ponto central frequentemente ignorado: Bolsonaro não obrigou o uso desses medicamentos — ele defendeu e sugeriu, dentro da lógica da autonomia médica e da decisão entre médico e paciente.
Em um cenário de incerteza global, médicos ao redor do mundo recorreram a tratamentos experimentais com base em estudos preliminares e experiência clínica. Esse tipo de conduta não é incomum em situações extremas. Em contextos de crise — ou, como muitos definiram à época, uma verdadeira guerra sanitária — protocolos são frequentemente revistos, flexibilizados e adaptados à realidade do momento.
Enquanto isso, autoridades sanitárias e organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde, também revisaram posições ao longo do tempo. O caso de Anthony Fauci, que mudou orientações públicas em temas como o uso de máscaras, tornou-se símbolo das contradições e incertezas que marcaram aquele período.
Ainda assim, o debate no Brasil rapidamente deixou de ser técnico para se tornar político. A defesa da autonomia médica foi tratada como heresia, enquanto a centralização de decisões passou a ser vista como virtude. Criou-se um ambiente em que questionar virou sinônimo de negar — e isso empobreceu o debate.
Passado o auge da crise, o que se impõe é uma reflexão mais honesta. Em vez de dogmas, havia dúvidas. Em vez de certezas absolutas, havia tentativas. E, nesse contexto, defender que médicos e pacientes tivessem liberdade para decidir não é radicalismo — é prudência.
Reescrever essa história como se houvesse unanimidade científica desde o início não é apenas impreciso. É uma forma de evitar o debate real sobre erros, excessos e decisões tomadas sob pressão.
E esse debate, gostem ou não, ainda está longe de terminar.