Alagoas nasceu politicamente em 16 de setembro de 1817, quando se emancipou de Pernambuco. A separação representava, naquele momento, a conquista de autonomia administrativa e política. Mas emancipação política não significava, necessariamente, independência econômica, desenvolvimento social ou instituições capazes de construir o próprio futuro. 209 anos depois, essa distinção continua necessária para compreender Alagoas. O Estado conquistou sua autonomia, mas não rompeu, na mesma velocidade, com estruturas econômicas, sociais e políticas que atravessaram gerações. Alagoas é rico em recursos naturais, terras férteis, belezas naturais, potencial turístico e capacidade humana, mas permanece entre os estados mais pobres do país, ocupando a 26ª posição entre as 27 unidades da Federação no IDH.

A formação histórica de Alagoas esteve ligada à concentração fundiária, à economia agrícola de exportação e à concentração do poder político e econômico. Durante décadas, as relações pessoais e de dependência tiveram peso maior do que a construção de instituições impessoais e capazes de limitar o poder. Não se trata de dizer que o atraso estava predestinado, mas de reconhecer que estruturas não reformadas tendem a reproduzir a si mesmas. Quando a política passa a administrar a pobreza em vez de criar condições para superá-la, o Estado se transforma em distribuidor de benefícios, empregos e favores, enquanto a economia privada é punida. É assim que a emancipação política pode coexistir com uma espécie de dependência econômica e social: o cidadão continua dependendo do poder público para acessar renda, emprego, serviços e oportunidades.

É nesse ponto que a educação de base assume importância decisiva. Um Estado que fracassa na educação por sucessivas gerações não produz apenas baixos indicadores escolares: produz menor produtividade, renda, inovação e mobilidade social. Alagoas possui 14,2% da população sem saber ler e escrever, a maior taxa de analfabetismo do Brasil. E o problema não termina no analfabetismo absoluto. Em um país onde cerca de 29% da população é considerada analfabeta funcional, a deficiência educacional significa também formar cidadãos com dificuldades para interpretar informações, compreender o funcionamento da economia, disputar melhores oportunidades profissionais e participar plenamente da vida política. A pobreza, nesse contexto, deixa de ser apenas falta de renda e passa a ser também falta de oportunidades produzidas por uma educação incapaz de preparar o indivíduo para competir em condições de igualdade.

O resultado aparece nos indicadores sociais e na infraestrutura básica. Segundo dados do SNIS e do Instituto Trata Brasil, 19,9% da população alagoana possui acesso à coleta de esgoto. Cerca de 2,5 milhões de alagoanos vivem sem coleta de esgoto, e aproximadamente 117 mil pessoas no Sertão Alagoano também não possuem acesso à coleta de esgoto. Ao mesmo tempo, em abril de 2026, o Bolsa Família atendia 505.485 famílias em Alagoas. Considerando uma média de três pessoas por família, são aproximadamente 1,5 milhão de pessoas alcançadas pelo programa, uma parcela expressiva da população estadual. A transferência de renda tem papel importante na proteção dos vulneráveis, mas esses números deveriam provocar uma pergunta incômoda: por que tantas pessoas continuam dependendo de políticas de transferência depois de décadas de políticas públicas?

Alagoas também carrega uma contradição econômica. Possui agricultura, pecuária, turismo, energia, mercado imobiliário, gastronomia, litoral e recursos naturais capazes de sustentar uma economia muito mais dinâmica, mas tem dificuldade para transformar essas vantagens em prosperidade permanente. O Estado ocupa a 6ª posição entre os nove estados do Nordeste e a 20ª posição nacional em tamanho do PIB. Sua economia permanece pouco diversificada e fortemente dependente de transferências federais, especialmente do Fundo de Participação dos Estados (FPE). A indústria também permanece pequena: segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), Alagoas responde por aproximadamente 0,4% do PIB industrial brasileiro. Enquanto estados vizinhos atraíram polos industriais, investimentos logísticos e grandes cadeias produtivas, Alagoas ainda encontra dificuldades para transformar suas vantagens naturais em capital, produtividade, empregos qualificados e riqueza própria.

A estagnação política é talvez a dimensão mais difícil desse problema porque ela pode transformar-se em método. Quando gerações inteiras crescem acreditando que o Estado é o principal caminho para obter emprego, renda, assistência ou influência, a dependência econômica transforma-se também em dependência política. O problema não é simplesmente o tamanho do Estado, mas a inversão de sua função. O Estado deveria garantir educação, segurança, infraestrutura, justiça e regras estáveis para que indivíduos e empresas pudessem produzir e prosperar. Quando substitui continuamente a iniciativa individual, corre o risco de transformar dependência em modelo de desenvolvimento. Quem sustenta o Estado, afinal, são aqueles que trabalham, empreendem, investem, produzem, consomem e pagam impostos. Romper esse ciclo exige educação básica de qualidade, saneamento, acesso à água, segurança jurídica, menos burocracia, infraestrutura, qualificação profissional, liberdade econômica, competição e estímulo ao empreendedorismo. Alagoas precisa desenvolver suas vocações econômicas do sertão ao litoral e criar condições para que a riqueza produzida permaneça e se multiplique no próprio Estado.

A história não condena um povo ao atraso, mas instituições podem perpetuá-lo quando não são reformadas. Alagoas não nasceu necessariamente para dar errado. Nasceu, porém, dentro de uma estrutura histórica que favoreceu a concentração de poder e que encontrou, ao longo dos séculos, diferentes formas de sobreviver. A emancipação política de 1817 não foi acompanhada, na mesma proporção, por uma emancipação econômica, educacional e institucional. No aniversário de 209 anos, a pergunta mais importante talvez não seja apenas “de onde viemos?”, mas “por que ainda não conseguimos chegar onde poderíamos?”. A resposta passa pela educação, pela economia, pelas instituições e pela política. O desafio não é distribuir melhor a escassez, mas criar as condições para produzir abundância. E antes que eu esqueça: A índole do alagoano é trabalhadora. Eis um dos poucos motivos que temos para celebrar.

Jeno Oliveira é jornalista

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